sexta-feira, 27 de março de 2015

Miguel Leal: «Quando perdia ficava um dia inteiro a chorar»


Miguel Leal: «Quando perdia ficava um dia inteiro a chorar»

Treinador do Moreirense em entrevista ao Maisfutebol

Detesta perder, lida mal com o insucesso. É capaz de ficar até duas noites sem dormir. Nada que se compare, porém, ao drama do início de carreira. Nessa fase, com pouco mais de 30 anos, o treinador Miguel Leal podia perfeitamente passar um dia inteiro a chorar, depois de perder um jogo. 


É contra o período de transferências de janeiro e não se considera o técnico-revelação da Liga. Doutorado em Psicologia, transporta para o balneário a paixão e conhecimentos sobre essa área tão específica. 


Perdeu vários atletas no mês de janeiro. De que forma olha para a possibilidade de contratar/perder jogadores a meio da época ? 

«A existência dessa janela de transferências não faz qualquer sentido. No final do mês de outubro os plantéis têm de estar fechados. Da forma atual, as equipas não lutam com as mesmas armas, pois os mais fortes podem mexer à vontade. Sei que é apetecível essa abertura do mercado, mas isso interessa a todos menos aos treinadores. É mau, interrompe processos e prejudica o nosso trabalho». 


O Miguel é candidato a treinador-revelação da Liga ? 
«Nunca pensei nisso. Há algum prémio para isso (risos)? Não faço ideia. Procuro dar o máximo em tudo o que faço. E procuro obrigar as pessoas pessoas que me acompanham a fazer o mesmo. Tento envolver todos numa ideia coletiva e na tomada de decisões. Por exemplo, chamo os capitães e pergunto: ‘o que é que vocês acham disto?’ Eu já sei a resposta, claro, mas procuro trazê-los para o meu lado. Procuro superar-me e exijo o mesmo aos meus atletas. Quando isso não acontece posso dizer-vos que fico mesmo muito triste». 



Lida mal com a derrota ? 
«Sim, com a derrota e a falta de vontade. Detesto a incompetência. Nos primeiros anos da minha carreira era terrível. Quando perdia, era capaz de ficar um dia inteiro a chorar. Na altura ainda namorava com a minha mulher… ela nem se aproximava. Ficava um dia inteiro em casa. Agora fico só uma ou duas noites sem dormir (risos). Mas quando ganho é a mesma coisa. É um sentimento muito forte. Mas, enfim, provoco muita dor em mim quando as coisas não correm como quero». 



 
«90 por cento do que nos acontece depende de nós. Por isso não vale a pena procurar desculpas. Faço sentir isso aos meus jogadores. A maior parte das minhas palestras incide neste tipo de lógica. Falo mais do estilo de vida ganhador do que de táticas». 



Considera a componente emocional tão importante como a tática? 
«Tem um lugar muito importante. Na nossa equipa tem. Dou grande atenção a isso. Muita. Todas as semanas dou uma palestra sobre questões desse género: controlo das emoções, formação de objetivos, atitudes de sucesso, funcionamento do cérebro, inconsciente, dor…» 



É doutorado em Psicologia. Esse interesse surge depois de já estar no futebol ou já era uma paixão anterior ? 
«Já vem muito de trás. Foi sempre uma área que me interessou muito. Fiz a minh tese de doutoramento quase toda na Turquia. Estava sozinho e aproveitei assim os tempos livres. Até tive um grande contratempo. Assaltaram-me a casa e roubaram-me tudo, o trabalho todo. Tinha o material no computador e num disco externo, mas nessa noite deixei as coisas pousadas no mesmo sítio. Mas lá falei com o meu orientador e tudo se resolveu. Quando voltei da Turquia estive meio ano sem fazer nada e agarrei nisso». 



Em várias entrevistas os seus jogadores referem-se a si da mesma forma: organizado e exigente. Concorda com esse perfil? 
«Quem não me conhece, olha para mim e acha que eu não sou exigente. Mas sou, sou muito. Não sou é de andar de pistola na mão e aos gritos. Sei que a forma como abordo o dia a dia obriga os atletas a dar sempre o máximo. Se eles dizem isso de mim… ótimo». 



O que é, então, um bom treinador de futebol? 
«O treinador deve ser um ideólogo com capacidade para se adaptar às características do plantel. Os princípios gerais devem prevalecer. Eu tenho a minha ideia de jogo, clara, só que todos os anos eu tenho um grupo diferente à minha disposição e por isso devo adaptar-me. Como é que posso aproveitar as características destes jogadores para aquilo que eu pretendo? No fundo, junto o meu ponto de vista ao tipo de plantel que tenho. Uma equipa bem treinada é uma equipa que ganha». 

Miguel Leal: «Quero chegar à Premier League ou à Bundesliga»

Miguel Leal: «Quero chegar à Premier League ou à Bundesliga»

Treinador do Moreirense em entrevista ao Maisfutebol


Nasceu em Marco de Canaveses há 49 anos. Foi um futebolista de qualidade razoável, médio centro «estratega». Na transição para o futebol sénior deu prioridade ao curso superior. Jogou nos campeonatos distritais da AF Porto e iniciou a carreira de técnico no futebol de formação. 


Na temporada 1999/2000 acudiu ao apelo de um amigo e foi treinar o Régua. Teve no histórico emblema do Douro a primeira experiência como treinador principal nos seniores. E nunca mais parou, apesar de ter sido obrigado a adiar alguns sonhos devido a problemas familiares. 



Depois de uma passagem pela Turquia, onde foi adjunto de José Couceiro no Gaziantepspor, concluiu o doutoramento em Psicologia e, por coincidência, abraçou por completo o sucesso desportivo. 



Conduziu o Penafiel à I Liga e chegou ao Moreirense. Perto de cumprir 50 anos (22 de abril), Miguel Leal é um profissional com objetivos bem definidos na cabeça. E por isso quer chegar à Inglaterra ou à Alemanha nos próximos anos, como confessa na entrevista ao Maisfutebol



Qual é a sua ambição máxima enquanto treinador? 
«Chegar à Premier League ou à Bundesliga. É um objetivo. Aliás, num curso que fiz há vários anos dei precisamente essa resposta a uma questão semelhante. Disseram que eu estava maluco. Enfim, é um sonho que já esteve mais longe. Vou fazer tudo para chegar lá. Se consigo ou não…» 



A partir de que momento o futebol entra a sério na sua vida? 
«Comecei a jogar futebol aos 12 anos. Nunca fui um jogador de eleição. Andei sempre pelos clubes da minha região. Joguei no Vila Meã e no Marco». 



Em que posição jogava? 
«Médio centro. Já era estratega nessa altura (risos). Quando cheguei aos seniores integrei o plantel do FC Marco, na III Divisão, mas é nessa altura que aposto também nos estudos. Pareceu-me mais seguro. Depois passei só a jogar em clubes do distrital da AF Porto». 



E quando assume o desejo de ser treinador? 
«Com 34 anos treinei o Régua. Foi a primeira experiência no futebol sénior. Estava lá um amigo meu e fui desafiado a fazer os últimos três meses da temporada. Foi uma grande experiência, adoro desafios difíceis. Acabei depois por voltar aos juniores do Penafiel, passei a adjunto do Leixões e assumi o cargo de treinador principal do FC Marco na época 2002/03». 



É um treinador que gosta de falar à comunicação social? Sente-se à vontade nesses contatos ? 
«Acho que é uma parte importante no papel de treinador, mas eu sou uma pessoa reservada. Preferia falar menos vezes. Quando falo tento sempre ser simpático e acessível. Compreendo que quem nos escuta está à espera de boas informações». 



Vive 24 horas por dia para o futebol ou aproveita os tempos livres para outros prazeres? 
«Inconscientemente, o futebol está sempre presente. Tento desligar-me, adoro ler, pratico várias modalidades desportivas. Não sou particularmente bom em nenhuma modalidade, mas gosto de quase todas (risos). Canoagem, ciclismo, atletismo…» 



Tem saudades de dar aulas no ensino secundário? 
«Não, sinceramente não. Leciono Psicologia no curso de Desporto num estabelecimento de ensino superior em Penafiel, uma ou duas horas por semana. E chega». 

Miguel Leal explica como se contrata um futebolista

Miguel Leal explica como se contrata um futebolista

Treinador do Moreirense em entrevista ao Maisfutebol


Sem tabus e sem fugir a nomes. Miguel Leal refere-se a alguns jogadores específicos do seu plantel. Sem rodeios e com uma enorme clarividência. Uma raridade no futebol português. 


O técnico do Moreirense aborda, nesta entrevista ao Maisfutebol, a chamada de Marafona à Seleção Nacional, diz que há outros jogadores com esse objetivo no balneário do Moreirense e também lamenta a saída de Luís Aurélio – para o Nacional - no mercado de inverno. 



Miguel Leal ainda nos explica de que forma se contrata um futebolista. Todo o processo. E não lhe apareçam com vídeos dos «melhores momentos». «Assim até eu», acrescenta. 

A construção do plantel do Moreirense foi o maior desafio da carreira, na medida em que teve de construir um plantel quase de raiz? 
«Não. Se calhar, para o ano se cá ficar, vai ser outra vez igual. No Penafiel foi um pouco igual; apenas no segundo ano é que foi um pouco diferente. Já tinha metade da equipa montada, foi só convencer os outros, que até foi mais fácil. Este ano foi parecido. Ninguém acreditava nesta equipa, tivemos jogadores que nos fugiram, nem tanto pelo dinheiro, mas pelo nome do clube. Foi muito difícil contratar jogadores. Por exemplo, tinha um top-5 de alvos e fiquei com o décimo». 


Desconfiavam do Moreirense? 
«Pela questão da história do clube, que as pessoas podem pensar que é um clube de sobe e desce, não acreditavam muito. Tenho a certeza que se cá ficar para o ano vou conseguir melhores jogadores do que no Penafiel. Consegui contratar jogadores no Penafiel por menos dinheiro, porque lhes dizia que iam chegar à Liga. Isso aconteceu e aqui também está a acontecer. Já há credibilidade, parece que não é importante, mas é. Um jogador também olha muito para isso, e também para quem o representa. É sempre um desafio escolher os jogadores. As pessoas às vezes dizem que conhecem os jogadores, mas eu só conheço os jogadores quando treino com eles. Quando estão noutra equipa só os conheço de os ver jogar. Tenho uma noção do valor competitivo e de rendimento que pode dar, mas não conheço a pessoa em si. É importante conhecer a pessoa, para que se possa rentabilizar o máximo que podem dar».  



Fale-nos dos passos que conduzem à contratação de um atleta: como é que tudo se processa? 
«Normalmente o primeiro contato é feito através do empresário. Também podemos falar com o presidente do clube onde esse atleta joga. Ouvimos a opinião de pessoas que trabalharam com ele, queremos conhecer o caráter e a vida dele extra-futebol. Eu não contrato um atleta sem o ver pelo menos uma vez ao vivo. Ou, no mínimo, ter um vídeo de um jogo completo dele. Não me interessa ver o best of. Assim até eu com 50 anos era contratado. E se me pusessem a jogar contra coxos, então ainda melhor. No fundo cruzamos várias informações. O processo é este».     



Como reagiu perante a chegada do Marafona à seleção? 
«Com muito agrado, é um jogador que merece. É o reconhecimento de um trabalho de toda a gente. É bom para ele, para o clube e para toda a gente. Ainda bem que aconteceu, é sinal que as coisas estão a ir de encontro às nossas expectativas. É um guarda-redes com muito potencial, ainda precisa de crescer. Há exceções, mas um guarda-redes normalmente atinge o auge da sua carreira por volta dos 30 anos, ele ainda está a caminho disso. Tem uma ou outra lacuna que precisará de trabalhar, mas não vale a pena falar sobre isso (risos). Ele sabe quais são e está a investir nisso». 



Referiu que o ponto forte do Moreirense é o coletivo. Não tem jogadores com capacidade para rasgos individuais? Battaglia não encaixa nesse perfil? 
«Agora sim (risos). Ultimamente está a aparecer, mas quando cá chegou... Foi uma luta, vocês não sabem a luta que foi para conseguir transformá-lo neste jogador; e ele com alguma resistência. Agora já olha para trás e diz que valeu a pena. Ele agora já vê um futuro muito mais risonho.» 



Luís Aurélio está a jogar com regularidade no Nacional, depois de sair do Moreirense sem oportunidades. Nessa altura o meio campo perdeu dois jogadores influentes. Foi uma saída precipitada? 
«Antes de tudo tenho de dizer que é um excelente profissional. Quando se conjeturou que podia sair, foi vontade própria dele. Não foi minha vontade, eu queria que ele ficasse. Quando se pôs a hipótese de ele sair, não se punha sequer a hipóteses de perder o Vítor Gomes e o Filipe Melo. O argumento que me deu para sair é que não tinha grandes possibilidades de jogar. Tinha alguns convites da II Liga, depois apareceu-lhe o Nacional. Se soubesse que o Vítor [Gomes] ia sair, nunca teria deixado o Luís Aurélio partir para a Madeira, foi uma questão de momento. Foi sempre um grande profissional e quando jogou cumpriu. Foi pena, olho para esta situação com pena, mas não foi vontade minha. Uma semana ou duas tinha feito a diferença…» 



Disse que outros jogadores do Moreirense têm o objetivo de chegar à seleção. Quem poderá lá chegar e quais são os principais ativos do Moreirense? 
«Ainda estão numa fase muito inicial, estão a dar os primeiros passos. São os casos do Patrick e outros dois que fomos buscar ao Real Massamá [Ença Fati e João Sousa]. São jogadores que são aposta do clube. Temos o Paulinho, temos o André Simões, temos o Battaglia, que são jogadores que vão sair no final da época. Espero que não saiam (risos), era ótimo. Mas, como não têm contrato, se calhar vão mudar de ares. São jogadores que podem dar passos maiores, estamos a falar de jogadores que não tinham historial nenhum na Liga e que neste momento já estão cotados ao mais alto nível.» 

Miguel Leal: no reino feliz do «expoente máximo da pequenez»


Miguel Leal: no reino feliz do «expoente máximo da pequenez»

Treinador do Moreirense em entrevista ao Maisfutebol

A entrevista com o treinador do Moreirense está agendada para as 14 horas. Chegamos 15 minutos mais cedo, mas a antecipação falha. Miguel Leal já está à nossa espera. No café do costume. 


Em Moreira de Cónegos não há treinos à porta fechada, ninguém pretende possuir o segredo sobre a localização do Santo Graal. Os jornalistas são bem recebidos e encaminhados para a mesa ao lado. No café onde o plantel convive, claro. 


Miguel Leal folheia um jornal, pede-nos uns minutos para se equipar e dirige-se para o balneário. Às 15 horas há jogo-treino contra o Famalicão e a conversa com o Maisfutebol tem de encaixar na agenda. 


Enquanto esperamos, os jogadores falam com adeptos e cumprimentam de mão estendida os visitantes de ocasião. Rapidamente percebemos que este não é um clube normal. 


O Moreirense resiste à imposição de regras que afastam as pessoas, as notícias, as curiosidades. E continua a ter sucesso. A manutenção está garantida, o próximo objetivo passa por melhorar a melhor classificação de sempre (nono lugar em 2003/04). 


Miguel Leal passa, entretanto, já equipado e pronto para a conversa com o nosso jornal. 


A meio do diálogo é interrompido por Silvino Morais, um dos adjuntos. Falta escolher o onze inicial para o jogo-treino. Força, mister, nós esperamos. Vale bem a pena. 


Miguel Leal, 49 anos, treinador do Moreirense em exclusivo ao Maisfutebol


OPINIÃO: é mais fácil quando há um rumo 



Que balanço destes dez meses no Moreirense? 

«Faço um balanço altamente positivo, diria até que surpreendente. Quando comecei a época, e se calhar a própria direção também, estávamos longe de pensar que correria tão bem. Tínhamos dois objetivos e conseguimos atingi-los a nove jornadas do fim; isso diz logo que a época está a correr muito bem. Com calma permite-nos lançar novos jogadores como já fizemos no domingo, quando lançamos mais um miúdo [Patrick] que vinha do Campeonato Nacional de Seniores. Além disso, claro, queremos tentar fazer os melhores resultados possíveis, cultivando uma cultura de vitória num clube de pequena / média dimensão». 


 
«Aliás, o nosso presidente até costuma dizer que somos o expoente máximo da pequenez, e muito bem, porque de facto o clube é um bocadinho isso; mas, em termo de organização, dá as condições necessários para que o êxito exista. É um clube organizado, cumpridor – que hoje em dia é uma das características mais importantes -, e o balanço é extremamente positivo. Estou satisfeito, os jogadores também, esta semana um jogador do Moreirense foi chamado pela primeira vez à seleção A. Isto também é fruto dos resultados; o facto de a equipa estar a fazer bons jogos faz com que os jogadores saiam valorizados, estando alguns deles a atingir os sonhos e os objetivos que no início se propuseram atingir. Alguns deles querem chegar à seleção, pode não ser este ano, mas têm esse objetivo; O Marafona já lá chegou». 



A sua estreia na Liga deu-se na hora certa ou chegou tarde? 
«Foi no momento em que foi possível. A carreira teve sempre um grande entrave, durante muitos anos, por questões familiares. Andei estes anos todos no futebol mas sempre como segunda opção. Até ir para a Turquia [2009], quando as coisas se resolveram a nível familiar. Foi a partir daí que pensei em apostar fortemente na carreira. Não há “timings” para as coisas, surgiu quando foi possível. Temos é de estar preparados para quando as oportunidades aparecerem as agarrarmos com todas as energias que temos». 



Depois de ter subido o Penafiel à Liga, o que o fez trocar o Penafiel pelo Moreirense? 
«Fundamentalmente foi o desafio. Se calhar, a proposta que o Penafiel me apresentou não era tentadora (risos). Às vezes uma pessoa fica no mesmo sítio e corre o risco de não evoluir. Aqui era um desafio novo e estava no tempo de dar novos passos, tentar novas coisas. Quando cá cheguei fizeram-me um desenho do clube, eu percebi como isto podia funcionar e acreditei que aqui podia ter sucesso. Foi essa a principal razão. Foi uma decisão difícil porque eu estava muito ligado ao Penafiel, não foi só nestes três anos. Fiz parte da equipa técnica das últimas três subidas, estive muitos anos na formação e é sempre difícil. Por acaso a proposta, há que referenciar, não foi tentadora. Tinha outro clube interessado, mas acabei por decidir pelo Moreirense. Não estou nada arrependido, pelo contrário; gosto de estar aqui, sinto que as pessoas gostam de mim e estou feliz.» 



Estava planeado, segundo a planificação pontual que normalmente faz, festejar a manutenção a dez jornadas do final do campeonato? 
«Estava. Já o ano passado em Penafiel, chegámos ao fim com 63 pontos, que era o que estava previsto desde o primeiro treino. São contas que vou fazendo. Não sou adivinho, faço cálculos para mim em função do calendário. Teoricamente em determinadas fases podemos fazer x pontos, noutras y pontos; isso vai tirando pressão em alguns jogos. Às vezes, o adepto, os próprios jogadores e a imprensa, valorizam muito uma vitória e depois desvalorizam outra. O jogador anda muito entre o oito e o 80. Com esta estratégia focalizo os jogadores num conjunto de jogos que lhe vai permitir atingir os objetivos. Às vezes o rendimento é mau num jogo, mas consegue-se recuperar noutro, às vezes até onde menos se conta. Conseguindo um objetivo, temos logo outro a seguir. Isso vai dando confiança, tranquilidade e faz com que jogue menos ansiosa. É uma estratégia diferente, reconheço isso». 



«Se estiver numa equipa grande de certeza que terei de arranjar outra estratégia, mas para uma equipa de média dimensão penso que tira muita pressão. Por exemplo a questão de jogar em casa; jogar fora vale exatamente os mesmos pontos. Jogamos para fazer pontos, o que interessa é no final de cada ciclo ter aqueles pontos e se assim for a equipa está no caminho certo.» 


Assumiu dois objetivos: a manutenção e a valorização de jogadores. Ficou preocupado pela valorização dos jogadores ter acontecido antes da manutenção? 
«Não, deu-me logo a sensação de cumprimento de um objetivo. Estava a contar que isso acontecesse em junho, aconteceu em dezembro. É sinal de que o trabalho já está valorizado. Não tive medo de que um interferisse no outro, porque sabia que face ao número de pontos que já tínhamos, com mais ou menos dificuldade íamos dar uma resposta positiva. Tinha essa confiança e, se sentisse que de alguma forma colocaria a manutenção em perigo, tinha-me oposto com mais veemência às saídas. Temos de olhar para o contexto do clube, que para ser sustentável tem de fazer isto com regularidade. Se queremos receber certinho ao final do mês, também temos de contribuir com alguma coisa.» 



O mês de janeiro foi complicado? Referiu que a partir do fim de janeiro ia ser mais fácil porque os jogadores iam ter novamente a cabeça no Moreirense. 
«Nesse mês perdemos dois ou três jogos porque os jogadores não andavam com a cabeça aqui. Havia muitas janelas de oportunidades, muitas propostas e isso fez com que jogadores de média dimensão, que não estavam habituados a isto, se descentrassem do espírito coletivo e do rigor que habitualmente pomos nas coisas. Isso fez com que alguns resultados fossem menos positivos. A partir daí, mesmo com mais limitações a equipa voltou a crescer e a encontrar-se. Confirmou-se e voltou ao trilho normal».