quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Entrevista de Fábio Espinho - Agosto de 2004



Quando treinou no Sp. Espinho disseram-lhe que era muito novo e demasiado baixo, que voltasse um ano mais tarde. Não voltou; o FC Porto captou-o a jogar na rua. Dois campeonatos nacionais e quatro títulos de melhor jogador depois, ao fim de doze anos, terminou o percurso de formação nos dragões como capitão de equipa. No futebol, ninguém o conhece como Fábio; é o Espinho!
“Fui um jogador de rua! Comecei a jogar por aí, houve um treinador que me conhecia e perguntou se queria ir treinar ao FC Porto. Fui, gostaram de mim e… até hoje.” Já passaram 12 anos e o Fábio, que fintava tudo e todos nas redondezas de casa, passou a ser o Espinho – “havia muitos Fábios e era confuso” –, respeitado pelos colegas portistas ao ponto de terminar há dias a sua prestação nas camadas jovens como capitão da equipa de juniores. Desta vez, ficou sem o título de campeão nacional, que conquistara nos iniciados e nos juvenis, pois o Benfica fez a desfeita na última jornada.
Craque desde que se conhece, Fábio, ou Espinho, vê-se pela primeira vez na iminência de vestir outra camisola que não a dos dragões. O contrato terminou e o FC Porto ficou de dizer até ao fim desta semana se irá ou não exercer a opção sobre o jogador. Enquanto espera, com os pés bem assentes no chão, Espinho vai fazendo contas à vida: “O FC Porto é um clube de onde se pode dar um salto maior do que saindo de equipas pequenas, mas há que trabalhar e esperar por alguma sorte. Representar o Sp. Espinho? Qualquer pessoa gostava de representar o clube da sua terra. Sendo o mais sincero possível, eu adorava vestir a camisola preta e branca”, confessa, contando a história que o impediu de ser “tigre” antes de “dragão”: “O meu irmão jogava no Sp. Espinho e o treinador Zé António, num dia em que eu assistia ao treino, perguntou-me se queria participar na peladinha. Fui treinando, mas chegou um momento em que ele disse que eu não tinha altura e idade e pediu-me para voltar um ano mais tarde. Foi tarde, chegou o FC Porto primeiro, felizmente…”
Ao longo da sua carreira, Espinho habituou-se a ter como referência os jogadores que tantas alegrias davam ao mesmo clube que ele próprio representava, tendência que se acentuou nos últimos dois anos, com as conquistas europeias do FC Porto. “Temos jogadores para quem podemos olhar e tentar fazer o que eles fazem. O Deco é o que mais gosto entre os do FC Porto. Fora do clube, admiro muito o Zidane, que a qualquer momento decide um jogo”, argumenta o jovem futebolista, que atira o nome do companheiro Ivanildo como o de um verdadeiro craque do futuro. “Não podemos prever nada, apenas ter uma ideia. Há o exemplo do Ivanildo, que veio da Guiné e está há muito anos no FC Porto, e que eu acho que tem excelentes perspectivas”, advoga.
Ser tratado pelo nome da cidade onde nasceu não é nada que incomode Fábio. “Há grandes jogadores com nomes que não são verdadeiramente deles. Até acho que é bom”, observa, revelando que, por outro lado, talvez já não valha a pena tentar mudar: “Vejo-me um pouco como referência na minha terra. As pessoas vão aos jornais e vêem sempre Espinho e até aqui já me tratam assim, não sei se por brincadeira ou por se estarem a adaptar.” Como, “fruto de grande trabalho em muitos anos”, até chegou a capitão de equipa, Espinho vê o “seu” nome ainda mais realçado. “Só tenho de estar orgulhoso”, resume.
E , pelo meio de tão bem sucedida caminhada de formação, por onde andam os estudos? “Deixei a escola no 9.º ano. Não é que não desse para conjugar as duas coisas, mas era difícil. Contudo, penso voltar aos estudos já no próximo ano, mesmo jogando futebol”, garante Espinho.

in jornal de Espinho