sexta-feira, 2 de maio de 2014

Os segredos do clube de vila que está de novo entre os grandes

Armindo Cunha está no Moreirense há 27 anos consecutivos. Treinador adjunto dos Cónegos, conhece melhor do que ninguém os cantos à casa e conta-lhe os segredos do clube de vila que está novamente na primeira divisão
Cerca de 4800 pessoas espalhadas numa área de 4,7km2 compõe uma pequena vila do norte de Portugal, orgulhosamente pertencente ao concelho de Guimarães. Pelas 108 ruas da freguesia corre por estes dias um especial regozijo. Uma vila como tantas outras, com os seus defeitos e vicissitudes mas que goza de uma particularidade: dá um clube ao principal escalão do futebol português.

O Maisfutebol foi até Moreira de Cónegos tentar perceber qual é o segredo do Moreirense, que pela terceira vez chega à primeira divisão. Tudo menos obra do acaso, portanto. Armindo Cunha é um filho da terra e poucos conhecerão como ele os cantos à casa. Pelo clube já passaram centenas de jogadores, vários presidentes e semelhante quantidade de treinadores. O adjunto mantém-se naquele que é o único clube que representou até hoje, imune a chicotadas psicológicas.

Armindo Cunha, que acumula o cargo de treinador da equipa de juniores do Moreirense com o cargo de adjunto da equipa principal, aponta a «organização» e a «estabilidade» como característica maior do clube que esta época regressa ao convívio dos grandes.

«O segredo é a estabilidade»

Comecemos pelo princípio, pela primeira subida do Moreirense. Pela mão de Manuel Machado, na época 2001/2002 os Cónegos foram campeões da segunda divisão, ficando à frente de clubes como a Académica ou Nacional da Madeira. A subida foi conseguida a 28 de abril de 2002 com uma goleada caseira (5-1) diante do Nacional.

Poucos em Moreira se esquecerão da tarde de domingo em que o «pequeno mas valente», como diz o hino do clube, se chegou à frente e saltou para o primeiro escalão. Um ano antes andava pelos campos da então Divisão de Honra, terceira divisão do futebol luso. Para um clube de vila, talvez fosse esse o «habitat natural» do Moreirense.

Já nessa altura, em que o Moreirense era um perfeito desconhecido para a maioria das pessoas, Armindo Cunha acreditava que os axadrezados verdes e brancos poderiam almejar voos mais altos.

«Acreditava e tinha fé. Olhando à organização que há neste clube e a toda a estrutura, tinha consciência de que isto mais dia ou menos dia ia acontecer. Gradualmente pegaram pessoas de poder no clube, e a família Moreirense apercebeu-se que isto tinha pernas para andar», referiu o treinador adjunto do Moreirense ao Maisfutebol.

Depois de três épocas na primeira divisão, seguiram-se duas descidas de divisão consecutivas até à Divisão de Honra. Uma década depois da primeira subida, novamente como Vítor Magalhães na presidência, o Moreirense voltou a juntar-se aos grandes do futebol. Uma época apenas, com descida imediata na última jornada. Mas, em Moreira de Cónegos a ambição é a Primeira Liga e também o regresso foi imediato.

Adjunto de técnicos como Vítor Oliveira, Jorge Casquilha ou Manuel Machado, Armindo Cunha não hesita na hora de apontar o segredo do sucesso do Moreirense. «O segredo é a estabilidade. As pessoas que estão à frente do clube quase sempre escolhem bem as pessoas quer em termos técnicos quer em termos de jogadores. Depois, é um clube que cumpre com tudo quer em termos financeiros, os jogadores sabem que ao dia oito têm o dinheiro, e isso ajuda muito para a estabilidade do clube».

Entre os técnicos de nomeada com quem Armindo Cunha trabalhou, Jorge Jesus será o nome mais sonante. O treinador adjunto do Moreirense diz que o relacionamento com os que o rodeiam e o rigor são as mais-valias do treinador do Benfica.

«É uma pessoa muito rigorosa em termos de trabalho, sabe muito de futebol: as provas estão à vista. Em termos táticos é muito esperto e trabalha muito bem. Não é qualquer que desenvolve o trabalho que ele está a fazer no Benfica. Gostei bastante de trabalhar com ele, tem uma relação espetacular com quem está ligado a ele», disse.

«Vítor Magalhães gere clube com uma classe fantástica»

Denominador comum em todas as subidas, a juntar a Armindo Cunha, o presidente Vítor Magalhães é uma figura incontornável do Moreirense. Durante três anos presidente do V.Guimarães, é em Moreira de Cónegos que o empresário consegue o impensável. O presidente da Câmara Municipal de Guimarães reconhece mérito ao líder do Moreirense.

«Pertencente a uma vila do concelho de Guimarães, o Moreirense consegue regressar, uma vez mais, ao primeiro escalão da Liga. Esse feito deve-se à dedicação do seu Presidente, Vítor Magalhães, à entrega dos seus jogadores e membros que fizeram e fazem parte da equipa técnica, ao trabalho dos seus dirigentes e à envolvência e entusiasmo dos seus adeptos», refere Domingos Bragança ao Maisfutebol.

O edil vimaranense diz mesmo que o Moreirense é uma referência no panorama desportivo nacional: «É por Guimarães que o país se deve rever. O Moreirense, com poucos recursos, dá uma prova disso mesmo, pois não há nada que nos limite e que impeça de querermos conquistar sempre mais. O Moreirense consegue alcançar uma proeza que o torna num clube de referência no desporto nacional».

Armindo Cunha também faz questão de referenciar Vítor Magalhães na hora de esmiuçar os principais pontos fortes do clube de Moreira de Cónegos: «Temos um presidente que é um grande gestor e percebe muito de futebol, aliás foi guarda-redes na formação dele. E depois é uma pessoa que sabe chamar as pessoas para si, em termos de sociedade em geral. Com tudo o que reúne em volta dele, com os tostõezinhos todos gere o clube com uma classe fantástica».

«Pessoas esperam sempre pelo domingo para ir ao futebol»

O hino do Moreirense, já referenciado, é um dos cartões-de-visita para quem se desloca ao Parque de Jogos Joaquim de Almeida Freitas, casa do Moreirense. Com entrada fácil no ouvido, a cada quinze dias é audível «fazes tua vila conhecida quando perdes ou quando vences».

Não é para menos, o Moreirense é a principal bandeira de Moreira de Cónegos: «Em termos de vila não vejo o que mais eleve o nome da terra, é o futebol. As pessoas estão sempre à espera que venha o domingo para ir ao futebol, há aquela correria e as pessoas até almoçam mais cedo. Vamos com o clube para muitos lados e algumas pessoas conhecem o Moreirense e nem sabem onde fica Moreira de Cónegos. As pessoas ficam surpreendidas com a nossa situação, e perguntam o que há em Moreira de Cónegos», diz o técnico de 58 anos.

Para Armindo Cunha, deixando de lado o sentimento que tem pelo clube, o lugar do Moreirense é mesmo na primeira divisão. O treinador adjunto espera que o clube se mantenha muitos anos no convívio dos grandes.

«Com estas pessoas à frente do clube estou convencido que se vai manter na primeira divisão. São pessoas que sabem gerir, que percebem muito de futebol e com muita organização. Estou convencido que nos podemos manter na primeira divisão muitos anos», atira.

in "http://www.maisfutebol.iol.pt/moreirense-liga-futebol/5362c1690cf24b6ecfaf7831.html"