domingo, 1 de junho de 2014

Entrevista de Márcio Madeira na Revista FAS - Futebol Ao Segundo, edição Junho

FAS - Futebol Ao Segundo (FAS) - Em 2004/2005, no seu primeiro ano de sénior, representou o Vasco da Gama Sines. Deparou-se com uma grande diferença entre os escalões de formação e a competitividade dos seniores?

Márcio Madeira (MM) - Sim, claro que as diferenças são sempre visíveis, quer a nível de treino quer a nível de jogo. Passei para uma realidade completamente diferente, podemos ver pela quantidade de jogadores que na formação se destacam e depois na transição para seniores não conseguem ter o mesmo rendimento. O inverso também acontece, existem jogadores que na formação têm percursos com pouca expressão e depois em seniores afirmam-se e fazem carreiras brilhantes. Tive a sorte de puder jogar no clube da minha terra, que conhecia bem, com jogadores que me facilitaram a adaptação e ajudaram bastante nesse primeiro ano de transição.


FAS - Na época seguinte, transfere-se para o União Micaelense. Mudou-se para os Açores por algum motivo em especial?

MM - Nessa primeira época, fui um dos melhores marcadores do campeonato, numa equipa que desceu de divisão e portanto os convites acabaram por acontecer naturalmente. Na altura, achei que o União Micaelense, quer em termos financeiros quer em termos desportivos, seria o melhor projecto para prosseguir a carreira. O meu espírito aventureiro falou mais alto e sai da minha zona de conforto com ambição como sempre fiz. O clube estava numa fase complicada e não correu como queria, mas serviu de aprendizagem.

FAS - Entre 2006 e 2008, representou o Operário. Como classifica o clube?

MM - O Operário faz parte duma fase bastante feliz da minha vida, tive dois anos fantásticos, conheci pessoas que ainda hoje me relaciono. Um clube organizado, bem gerido por Gilberto Branquinho e muito bem comandado na altura por Francisco Agatão. Um treinador que me marcou bastante por tudo o que me ensinou. Ainda hoje sinto saudades desses tempos e dessas pessoas. Fomos duas vezes vice-campeões e tudo graças a um balneário que se confundia com família. O jogador ali era tratado como um filho. São tempos que não voltam, mas que vou sempre recordar com nostalgia.


FAS - Em 2010, assina pelo Nacional da Madeira. Considera este o momento mais alto da sua carreira?

MM - Sem duvida que é o momento mais marcante e com mais impacto na minha vida desportiva. Tinham sido muitos anos nas divisões mais baixas sempre na esperança de alcançar um patamar diferente. Foi uma luta tremenda, tive que batalhar muito e trabalhar bastante para ter a sorte de assinar pelo Nacional. Passei de amador a profissional, mas só nos contratos, porque no campo sempre quis que essa diferença não se notasse.


FAS - Jogou na Liga Europa, ao serviço do Nacional da Madeira. O quão gratificante é para um atleta jogar numa competição europeia?

MM - A Liga Europa foi mais um dos sonhos que realizei sem sequer sonhá-lo. Sou ambicioso, mas achava pouco provável atingir esse patamar. Mas a minha carreira sempre foi um pouco assim. Depois dizer-lhe que ali não representamos só o nosso clube, nesse caso, o Nacional. Representamos o nosso país. Viajar de charter, jogar contra o campeão islandês num país onde naquela altura do ano não havia noite. Foram experiências únicas. São jogos diferentes e ambientes fantásticos. É mais um momento que recordarei e contarei aos meus netos.


FAS - Esta época, foi campeão da Segunda Liga pelo Moreirense. De uma forma geral, como descreve esse percurso?

MM - Tivemos sempre uma regularidade assinalável, sabíamos que estando nos lugares de cima, tínhamos depois mais chances de discutir o acesso à Primeira Liga. Estivemos sempre nesses lugares, não caímos com derrotas nem metemo-nos em bicos dos pés com grandes vitorias. O nosso percurso foi sempre estável e nunca balanceamos muito na tabela.


FAS - Qual foi o segredo para a excelente campanha do Moreirense na Segunda Liga?

MM - O segredo esteve, para mim, no plantel que foi construído. A nível individual éramos o plantel com mais soluções. Tínhamos 2 jogadores de igual valia para cada lugar. Numa época desgastante e longa como a Segunda  Liga isso é muito importante. Nunca oscilamos, porque tínhamos 24 titulares. Usámos diferentes equipas e sempre com bons resultados. Jogadores experientes e que controlavam os momentos de ansiedade ou de euforia com facilidade. E depois a organização do clube, não nos faltava nada e cumpriam sempre connosco. Era um plantel realmente muito forte.


FAS -  A nível individual, como classifica esta época?

MM - Foi uma época positiva, mas que acaba por saber a pouco, porque a ultima imagem é a que fica. Comecei a época como titularíssimo, fiz alguns golos e assistências, mas depois na segunda metade da temporada  perdi o fulgor inicial. Como disse antes, mérito de colegas com bastante qualidade que entraram na equipa e deram igual resposta à que eu vinha a dar. Mas feliz por ter sido campeão. O importante ali era cumprir o objectivo para que fui contratado.


FAS - Você e o Moreirense não chegaram a acordo para a renovação do contrato, sendo agora um jogador livre. Gostava de abraçar um novo projecto em Portugal ou no estrangeiro?

MM - Neste momento, estou aberto a propostas quer de Portugal ou do estrangeiro. Vou dar preferência a projectos ambiciosos, sérios e que tenham vontade em contar comigo. Mais importante do que estar onde queremos é estar onde nos querem. Pelo menos eu penso assim.


FAS - Como português, o que espera da Selecção Nacional no Mundial 2014?

MM - Espero sinceramente que Portugal passe a Fase de Grupos. Temos um grupo com competência para tal. Depois é ver quem nos calha em sorte e jogar com a mesma coragem. Podemos ir longe. Assim o espero. Todos sabem que tenho uma relação familiar com o Neto, é meu irmão com um sangue diferente e portanto espero que seja esta a competição internacional onde ele se possa afirmar.


FAS - Se pudesse escolher uma liga internacional, onde jogar, qual seria? E porquê?

MM - Inglaterra. Pela paixão, pelo ambiente e pelo amor ao jogo. E porque também penso que tenho algumas características que se encaixariam no tipo de futebol inglês, como a meia distancia ou a bola parada.

Pode encontrar a revista em: http://www.faosegundo.com/2014/06/revista-fas-futebol-ao-segundo-edicao.html