sexta-feira, 27 de março de 2015

Miguel Leal: no reino feliz do «expoente máximo da pequenez»


Miguel Leal: no reino feliz do «expoente máximo da pequenez»

Treinador do Moreirense em entrevista ao Maisfutebol

A entrevista com o treinador do Moreirense está agendada para as 14 horas. Chegamos 15 minutos mais cedo, mas a antecipação falha. Miguel Leal já está à nossa espera. No café do costume. 


Em Moreira de Cónegos não há treinos à porta fechada, ninguém pretende possuir o segredo sobre a localização do Santo Graal. Os jornalistas são bem recebidos e encaminhados para a mesa ao lado. No café onde o plantel convive, claro. 


Miguel Leal folheia um jornal, pede-nos uns minutos para se equipar e dirige-se para o balneário. Às 15 horas há jogo-treino contra o Famalicão e a conversa com o Maisfutebol tem de encaixar na agenda. 


Enquanto esperamos, os jogadores falam com adeptos e cumprimentam de mão estendida os visitantes de ocasião. Rapidamente percebemos que este não é um clube normal. 


O Moreirense resiste à imposição de regras que afastam as pessoas, as notícias, as curiosidades. E continua a ter sucesso. A manutenção está garantida, o próximo objetivo passa por melhorar a melhor classificação de sempre (nono lugar em 2003/04). 


Miguel Leal passa, entretanto, já equipado e pronto para a conversa com o nosso jornal. 


A meio do diálogo é interrompido por Silvino Morais, um dos adjuntos. Falta escolher o onze inicial para o jogo-treino. Força, mister, nós esperamos. Vale bem a pena. 


Miguel Leal, 49 anos, treinador do Moreirense em exclusivo ao Maisfutebol


OPINIÃO: é mais fácil quando há um rumo 



Que balanço destes dez meses no Moreirense? 

«Faço um balanço altamente positivo, diria até que surpreendente. Quando comecei a época, e se calhar a própria direção também, estávamos longe de pensar que correria tão bem. Tínhamos dois objetivos e conseguimos atingi-los a nove jornadas do fim; isso diz logo que a época está a correr muito bem. Com calma permite-nos lançar novos jogadores como já fizemos no domingo, quando lançamos mais um miúdo [Patrick] que vinha do Campeonato Nacional de Seniores. Além disso, claro, queremos tentar fazer os melhores resultados possíveis, cultivando uma cultura de vitória num clube de pequena / média dimensão». 


 
«Aliás, o nosso presidente até costuma dizer que somos o expoente máximo da pequenez, e muito bem, porque de facto o clube é um bocadinho isso; mas, em termo de organização, dá as condições necessários para que o êxito exista. É um clube organizado, cumpridor – que hoje em dia é uma das características mais importantes -, e o balanço é extremamente positivo. Estou satisfeito, os jogadores também, esta semana um jogador do Moreirense foi chamado pela primeira vez à seleção A. Isto também é fruto dos resultados; o facto de a equipa estar a fazer bons jogos faz com que os jogadores saiam valorizados, estando alguns deles a atingir os sonhos e os objetivos que no início se propuseram atingir. Alguns deles querem chegar à seleção, pode não ser este ano, mas têm esse objetivo; O Marafona já lá chegou». 



A sua estreia na Liga deu-se na hora certa ou chegou tarde? 
«Foi no momento em que foi possível. A carreira teve sempre um grande entrave, durante muitos anos, por questões familiares. Andei estes anos todos no futebol mas sempre como segunda opção. Até ir para a Turquia [2009], quando as coisas se resolveram a nível familiar. Foi a partir daí que pensei em apostar fortemente na carreira. Não há “timings” para as coisas, surgiu quando foi possível. Temos é de estar preparados para quando as oportunidades aparecerem as agarrarmos com todas as energias que temos». 



Depois de ter subido o Penafiel à Liga, o que o fez trocar o Penafiel pelo Moreirense? 
«Fundamentalmente foi o desafio. Se calhar, a proposta que o Penafiel me apresentou não era tentadora (risos). Às vezes uma pessoa fica no mesmo sítio e corre o risco de não evoluir. Aqui era um desafio novo e estava no tempo de dar novos passos, tentar novas coisas. Quando cá cheguei fizeram-me um desenho do clube, eu percebi como isto podia funcionar e acreditei que aqui podia ter sucesso. Foi essa a principal razão. Foi uma decisão difícil porque eu estava muito ligado ao Penafiel, não foi só nestes três anos. Fiz parte da equipa técnica das últimas três subidas, estive muitos anos na formação e é sempre difícil. Por acaso a proposta, há que referenciar, não foi tentadora. Tinha outro clube interessado, mas acabei por decidir pelo Moreirense. Não estou nada arrependido, pelo contrário; gosto de estar aqui, sinto que as pessoas gostam de mim e estou feliz.» 



Estava planeado, segundo a planificação pontual que normalmente faz, festejar a manutenção a dez jornadas do final do campeonato? 
«Estava. Já o ano passado em Penafiel, chegámos ao fim com 63 pontos, que era o que estava previsto desde o primeiro treino. São contas que vou fazendo. Não sou adivinho, faço cálculos para mim em função do calendário. Teoricamente em determinadas fases podemos fazer x pontos, noutras y pontos; isso vai tirando pressão em alguns jogos. Às vezes, o adepto, os próprios jogadores e a imprensa, valorizam muito uma vitória e depois desvalorizam outra. O jogador anda muito entre o oito e o 80. Com esta estratégia focalizo os jogadores num conjunto de jogos que lhe vai permitir atingir os objetivos. Às vezes o rendimento é mau num jogo, mas consegue-se recuperar noutro, às vezes até onde menos se conta. Conseguindo um objetivo, temos logo outro a seguir. Isso vai dando confiança, tranquilidade e faz com que jogue menos ansiosa. É uma estratégia diferente, reconheço isso». 



«Se estiver numa equipa grande de certeza que terei de arranjar outra estratégia, mas para uma equipa de média dimensão penso que tira muita pressão. Por exemplo a questão de jogar em casa; jogar fora vale exatamente os mesmos pontos. Jogamos para fazer pontos, o que interessa é no final de cada ciclo ter aqueles pontos e se assim for a equipa está no caminho certo.» 


Assumiu dois objetivos: a manutenção e a valorização de jogadores. Ficou preocupado pela valorização dos jogadores ter acontecido antes da manutenção? 
«Não, deu-me logo a sensação de cumprimento de um objetivo. Estava a contar que isso acontecesse em junho, aconteceu em dezembro. É sinal de que o trabalho já está valorizado. Não tive medo de que um interferisse no outro, porque sabia que face ao número de pontos que já tínhamos, com mais ou menos dificuldade íamos dar uma resposta positiva. Tinha essa confiança e, se sentisse que de alguma forma colocaria a manutenção em perigo, tinha-me oposto com mais veemência às saídas. Temos de olhar para o contexto do clube, que para ser sustentável tem de fazer isto com regularidade. Se queremos receber certinho ao final do mês, também temos de contribuir com alguma coisa.» 



O mês de janeiro foi complicado? Referiu que a partir do fim de janeiro ia ser mais fácil porque os jogadores iam ter novamente a cabeça no Moreirense. 
«Nesse mês perdemos dois ou três jogos porque os jogadores não andavam com a cabeça aqui. Havia muitas janelas de oportunidades, muitas propostas e isso fez com que jogadores de média dimensão, que não estavam habituados a isto, se descentrassem do espírito coletivo e do rigor que habitualmente pomos nas coisas. Isso fez com que alguns resultados fossem menos positivos. A partir daí, mesmo com mais limitações a equipa voltou a crescer e a encontrar-se. Confirmou-se e voltou ao trilho normal».